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Travessia "SERRA FINA"
Postado por: Tong Cheong Ming

A travessia da Serra Fina é uma das mais difíceis do Brasil e talvez da América Latina. Foram quatro dias de subidas e descidas por montanhas e picos com mais de 2.000 metros acima do nível do mar. A logística também é muito complicada, devido à escassez de água no primeiro e no segundo dia. Significa que temos que carregar o peso extra d'água nas primeiras subidas, com desníveis em torno dos 1.000 metros.

Nossa trilha começa na localidade conhecida como Toca do Lobo, a 1.500 m.a.n.m. e o objetivo do primeiro dia é chegar ao acampamento do Capim Amarelo a 2.491 m.a.n.m. Outra grande dificuldade é o transporte até a entrada da trilha, e também o resgate ao final da travessia. Praticamente inexistente.

O ponto culminante da Travessia da Serra Fina é o pico da Pedra da Mina, com 2.798 m. A trilha é feita praticamente pela crista dessa cadeia de montanhas, onde tem passagens com larguras com menos de um metro. Por isso o nome Serra Fina. Posso afirmar que é uma travessia muito técnica, pois além de carregar uma mochila com mais de 20 kg, com subidas "desesperadoras", trechos de trepa pedras, ribanceiras, frio, os pântanos do Vale do Ruah, atravessar as touceiras de "capim de anta" com mais de 2 m. de altura, temos ainda para completar os "carafás", um tipo de bambuzinho que corta e arranha. Como sugestão, coloque a capa de chuva no mochilão, para não ficar enganchando nos galhinhos, e também use camisa de manga comprida. Um par de luvas de couro ajuda muito nessas horas.

Na travessia subimos e descemos 10 montanhas, todas com mais de 2.000 m. de altitude. Serra Fina faz parte da cadeia da Serra da Mantiqueira, fazendo divisa com os estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Mantiqueira em tupi-guarani significa "Montanha que Chora" por causa das nascentes e cachoeiras que brotam de suas montanhas.

Uma curiosidade interessante sobre a Pedra da Mina é quanto à sua altura em relação a outros picos do Brasil. Muitos estudiosos afirmam que ela é a quarta montanha mais alta do Brasil. Para outros ela fica em sétimo lugar com seus 2.798 m. Em primeiro lugar está o Neblina, depois o "31 de Março", o Pico da Bandeira com 2.892 m., o P4 (sem nome – faz parte do conjunto do Caparaó) com 2.852 m., o Calçado com 2.849 m., o P6 (sem nome – faz parte do conjunto do Caparaó) com 2.818 m. e em sétimo lugar a Pedra da Mina.

Eu, Jorge, Elsio e Jefferson saímos do Rio às 23 horas em direção a Cruzeiro. Chegando lá, pegamos outro ônibus para São Lourenço e descemos na estrada no quilometro 19, na altura da lavanderia Zobom. Atravessamos uma pequena ponte e chegamos a Passa Quatro. Tinha contatado um jipeiro para nos levar ao início da trilha, na Toca do Lobo. Depois de mais de hora de espera, eis que surge um caminhão reboque, caindo aos pedaços, todo sujo e empoeirado. Tive o privilégio de viajar dentro da cabine na companhia de um cachorro pulguento. Os outros foram na caçamba, tomando vento e comendo poeira.

Depois de muitos solavancos e percorrer por mais de 10 km, o reboque parou numa subida e o motorista pediu para descermos. Faltavam aproximadamente uns 800 m. e o caminhão não subia aquele trecho. Comentei com o motorista sobre o estado de conservação do reboque, e também do preço cobrado R$ 150,00. Ele respondeu que era assim mesmo e que só ele fazia esse transporte, etc.

E lá fomos nós morro acima, no maior breu às 4 horas da madrugada, até a Toca do Lobo. Descobrimos depois que existem kombis que fazem transporte. Forramos aquele mato todo molhado com os isolantes térmicos e tiramos um cochilo no saco de dormir. Levantamos às 6 horas, depois do café rápido, enchemos os reservatórios com águas do rio ao lado e partimos rumo ao Capim Amarelo.

Andamos em média 10 horas por dia, contando com as pausas pra descansos e fotos. Os locais para acampamento são pequenos. Como era feriadão, havia mais montanhistas do que o de costume. Encontramos um amigo que havia feito os 10 picos da Tijuca conosco. Foi ele que nos ajudou no transporte ao final da travessia. O Alto do Capim Amarelo estava todo tomado de barracas. Andamos mais um pouco e ficamos no acampamento Avançado.

Acordamos com o Sol aquecendo as barracas. Fizemos nosso café da manhã sem pressa e partimos do acampamento às 9 horas da manhã. Dizem que o segundo dia é o pior da travessia. Muita disposição rumo à Pedra da Mina, e também hora para desistir ou seguir em frente, porque depois desse ponto não tem volta. É tal de sobe e desce montanha que não acaba. Quando você pensa que está acabando a subida, lá na frente tem uma maior ainda.

Após 5 horas de caminhada chegamos à bifurcação da trilha para a Cachoeira Vermelha, nosso primeiro ponto de água. Não foi necessário encher todos os reservatórios, 6 litros cada um. Antes da subida à Pedra da Mina margeamos o rio Claro, cujas águas são bem melhores. Subir os 300 metros de desnível até o topo da pedra, realmente não é tarefa fácil. Chegamos a tempo de apreciar o Por do Sol. Muitos grupos não completam a travessia da Serra Fina e retornam da Pedra da Mina, saindo na localidade da Fazenda Serra Fina. São 5 horas de descida até a estrada.



Levantamos cedo pra ver o Sol nascer por trás das montanhas das Prateleiras e Agulhas Negras. Deixamos mensagens e assinamos no livro de Cume. Às 8 horas partimos rumo ao nosso terceiro dia da travessia. Nosso próximo acampamento é o Pico dos Três Estados, com seus 2.656 m. Para mim esse dia foi o mais difícil. Visto do alto, o vale do Ruah parece um tapete cortado pelos meandros do rio Verde. Na medida em que descemos é que surgem as dificuldades. Se perder nesse local é a coisa mais fácil do mundo. Simplesmente não existe trilha. É tudo um alagadiço só. E tudo coberto pelo capim de anta, com mais de metro de altura.

Atravessamos o rio e seguimos pela margem direita até a base de uma elevação e aí começou o trecho de trepa pedras. Mais subidas e descidas íngremes, os bambuzais de carafás cortando e arranhando, os capinzais de anta espetando e batendo no rosto, e o pior de tudo, não dava para identificar a trilha.



Conseguimos chegar ao Pico dos Três Estados na hora do Por do Sol. Por ser um local pequeno, já estava toda ocupada. Já tinha mais de 10 barracas. Ajeitamos-nos na medida do possível. Mais tarde chegou um grupo com oito pessoas. Para montarem as barracas, começaram a derrubar com facadas, ponta pés e sacudidas todas as touceiras de capim que havia no local. Homens e mulheres todos completamente sem noção. E para piorar, montaram a cozinha deles em cima do marco da divisa dos Três Estados. Estragaram as fotos de todos que queria levar uma lembrança do local. Eram todos paulistas e não estavam nem aí. Faziam-se de desentendidos.

Tomamos nosso café às 7 da manhã. Nosso ultimo dia de travessia. Conferindo o GPS temos mais duas montanhas pela frente, a descida ao Bandeirante e a subida ao Alto dos Ivos. Um sentimento misturado de tristeza e alegria tomou conta de nós. O término da aventura estava próximo e a civilização também, isto é, banho e comida de verdade. Afinal foram 4 dias andando pelas montanhas.

A Travessia da Serra Fina requer muita atenção, mesmo para os mais experientes. Presenciamos um fato desagradável que aconteceu com um guia local, com muitos anos de travessia. Na descida dos Ivos ele se perdeu e ficou dando voltas com seu grupo. No final deu certo, ele avistou outro guia na crista oposta da montanha.

O relógio marcava 02h30min da tarde quando avistamos a cerca de arame farpado da fazenda Engenho da Serra do Pierre. Mais uma hora de caminhada e já avistamos a estrada, com a Kombi estacionada. Foi muita sorte termos encontrado com nosso amigo na travessia. Ele tinha contratado o resgate e telefonou lá do Alto dos Ivos para o motorista, pedindo mais um carro para nós. Da próxima vez que fizermos Serra Fina, vamos contatar o resgate da cidade de Itamonte. O dono da Kombi nos levou até Itamonte para ver se conseguíamos passagens para o Rio. Como era feriado de Páscoa, o ônibus estava lotado. A única alternativa foi nos levar até Itanhandú, cidade onde ele mora. Cobrou R$ 20,00 de cada um de nós. De lá conseguimos ônibus para Cruzeiro e depois um direto até o Rio e Janeiro.

Realmente uma grande aventura com meus amigos. Quatro dias ensolarados. Tudo perfeito. Grande aventura a Travessia da Serra Fina.

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Comentários
  • Carlos Lannes - 12/08/2011
    carloslannes@yahoo.com.br

    Ficou muito bom o seu relato, descreveu na íntegra as dificuldades e beleza da travessia. Parabéns e um forte abraço!!!
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